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O Pulo

Já era tarde da noite quando o último guarda fechou com chave os portões do corredor. Ao fundo, no canto esquerdo, a respiração sobressaltada da cela 42 começava a irritar os demais. ‘Cale a boca, seu verme’, gritou um, ‘se for para morrer, que morra em silêncio’, disse outro. O silêncio foi chegando, as luzes se apagando uma a uma. No fim do ritual, as oito celas daquele corredor encontravam-se escuras e se via apenas a luz da lua – azul e prateada – iluminando o chão de pedras. O lugar todo era feito de pedras, com arcos redondos nas portas das celas, fugindo do aspecto reto e quadrado das outras prisões. Mais de uma vez o prisioneiro da cela 42 desejou que o punhado de pedra acima de sua cabeça desmoronasse sobre ele. Quando tudo se apagou houve ainda tosses, resmungos e cusparadas. Presos se ajeitavam, entregando-se sem resistir a mais uma noite de confinamento. Exceto um. Havia naquele momento alguém com a cabeça fervilhando, alguém que tramava algo, alguém que respirava pesado c…

A Hora da Glória

O silencio a acordou. Glória acostumara, com muito esforço, os ouvidos aquele zumbido constante de turbina e de repente não ouvia mais nada. O silêncio só significava uma coisa: aquela merda de avião estava caindo. 
    Um arrepio lhe subiu a espinha. Imediatamente viu surgir os óculos fundo de garrafa de Tia Hercília, com seus imensos olhos verdes cravados nos dela. Segurando firme a palma de sua mão direita, a velha dizia “sinto muito querida, você corre grande perigo”. 
   Glória tinha apenas oito anos, mas desse dia em diante viveu como se estivesse andando à beira de um abismo. Não adiantou a família explicar que Tia Hercília era paciente do hospital psiquiátrico Vera Cruz, nem que “essa coisa de ler o futuro” não passava de tolice. Nada tirava da cabeça dela a previsão da tia. Por isso até hoje, vinte anos depois, não havia feito nada que pudesse colocar voluntariamente sua vida em risco. 
   Mas aí veio o telefonema, o pedido urgente de uma visita à Porto Alegre que não p…

Sobre ter coragem e fazer escolhas

Quando eu era pequena, via de regra brincava de ser adulta. Não me lembro nunca de em alguma brincadeira de criança ter me intitulado "a criança maravilha", "a super-criança" ou "a criança desbravadora que sobreviveu à uma floresta cheia de monstros assustadores". Nunca. Eu era a mulher maravilha, a super mulher, a mulher desbravadora. Se possível gostava de acrescentar o título de "a primeira" antes das conquistas, porque havia em mim um quê de coragem de ser a primeira das coisas.


Coragem. Taí um tema que me perseguiu quando eu entrei na adolescência. É só olhar pra minha estante. Se fosse para separar meus livros em temas, caberiam todos nessa categoria. Eu sempre fui fã de gente corajosa. Que arrisca, que vai contra, que dá um passo adiante e paga para ver. A coragem sempre me perseguiu, mesmo quando lentamente me afastei dela.
Com o tempo fiquei menos corajosa (ou mais preocupada) e deixei de ser a garota destemida para me tornar alguém caute…

Sobre vida, morte, viagem no tempo e Billy Pilgrim

Acabei o livro mais maluco e mais fantástico que li esse ano: O Matadouro 5 de Kurt Vonnegut. Como o próprio autor diz, esse livro...
“Começa assim:  Escutem: Billy Pilgrim soltou-se no tempo. Termina assim: Piu-piu-piu?”
Matadouro 5 é uma obra anti-guerra que fala sobre um sobrevivente do massacre de Desdren, na Alemanha, na Segunda Guerra Mundial.  Mas o livro não tem uma narrativa comum, o livro é um absurdo. No melhor dos sentidos.
Billy Pilgrim, o protagonista, sobreviveu aos acontecimentos mais improváveis (único a sair vivo de um acidente de avião, um dos poucos sobreviventes de um bombardeio histórico, etc), Billy sobrevive a coisas improváveis muito provavelmente porque ele próprio é um personagem bastante improvável. Para começar ele é “solto” no tempo, o que significa que ele consegue viajar e reviver diversos momentos de sua vida, assim, num piscar de olhos. Como eu que agora esfrego o olho direito e de repente estou na pré-escola de novo, enxugando as lágrimas que caem dos …

Sobre o que você está fazendo da sua vida

Se você pudesse, como mediria um ano de sua vida?
Essa é a pergunta de uma das – se não a – música mais famosa do musical Rent, logo de cara um soco no estômago. Mas não é a primeira coisa que você ouve, tem uma jornada inteira antes de chegar até ela. O musical fala sobre um grupo de amigos que vive em Nova York na década de 80. Com pouco dinheiro e vários perrengues, eles são cercados por um contexto de drogas e o terror da AIDS que aumentava as estatísticas de vítimas com uma velocidade absurda. A morte vive na esquina e essa realidade dá a dimensão da história que me toca mais fundo: a vida é breve, o que você vai fazer com ela? No grupo tem gente de todo tipo: um aspirante a cineasta, um guitarrista que contraiu HIV e perdeu a namorada que se suicidou, um casal de garotas em que uma é espirito livre demais e outra de menos, uma outra garota quase perdida para as drogas, um gênio da informática e uma drag – maravilhosa e muito bem resolvida, por sinal a única. Cada um à sua manei…

Cartas para mim

Eu de 5 anos
Continue brincando, muito. Sério, pegue sua escova de cabelo e vá fingir que é microfone. Dica: a cortina do sofá é uma ótima entrada para o seu palco. Ah, continue fazendo peças imaginárias e inventando histórias. Um dia você vai querer fazer isso para viver.
Eu de 6 anos
Sim, ler é demais, eu sei! Continue levantando a mão para responder sempre que souber ler o que está escrito na lousa, mesmo que a professora peça pra você deixar outro aluno falar. Um dia essa história pode te ajudar em uma entrevista de emprego.
Eu de 8 anos
Parece que você vai morrer cada vez que ele entra no pátio, mas não vai, prometo. Aliás, boa tática essa de ser a única que não persegue ele no recreio, vai funcionar. Agora uma dica: você vai fazer uma coisa muito fria que vai deixá-lo muito chateado, mas eu sei que você não tem o coração gelado ok? Você só não sabia como era estar apaixonada. Fique tranquila, vai demorar mas vai ficar tudo bem.
Eu de 10 anos
Eu sei que você se sente diferente. Que …

Sobre queridices: É só reparar

Em menos de 50 passos aconteceram tantas coisas aleatórias que questionei se algo tinha acontecido com o universo enquanto estive fora.  Primeiro precisei desviar depressa para não ser esmagada por uma banda de jazz que surgiu do nada no meio da calçada. Quer dizer, no começo era jazz mas acho que deixou de ser quando pedi licença para o moço do banjo. No caminho inverso vinha um jovem segurando um pacote com 4 rolos de papel higiênico como se fosse um livro. Olhei duas vezes para ter certeza, era. Ainda pensava nisso passou por mim uma mulher falando espanhol. Com o cachorro.

Tudo isso soaria como um perfeito absurdo se não fosse inteiramente verdade.
Hoje de manhã me deparei com uma pintura feita a mão de um casal no dia de seu casamento. Noiva e noivo em um beijo singelo jogados embaixo da escada da estação do metrô.


Minha teoria é que as coisas estão lá para todo mundo ver mas eu é que dou importância além da conta pra elas. Sou a pessoa mais avoada e mais detalhista que eu já vi andan…